"Má Sorte!"
A mentira mais confortável do sistema de inovação alemão
O Diálogo
Há um diálogo que se repete entre inventores e o sistema há décadas. Tem muitas variantes, mas em essência é sempre o mesmo:
Nestas duas frases está toda a tragédia do sistema de inovação alemão. Um diz: O problema é estrutural. O outro diz: O problema és tu.
E enquanto o sistema conseguir impor a sua resposta, não precisa mudar.
A Mecânica da Reinterpretação
O que acontece quando um inventor fracassa? Não tecnicamente — a sua invenção funciona. Mas comercialmente, institucionalmente, no sistema.
O sistema tem duas opções:
A opção A requer autorreflexão, mudança, trabalho.
A opção B só requer uma frase: "Má sorte."
O sistema de inovação alemão escolheu a opção B durante décadas.
As Variantes da Má Sorte
"Má sorte" vem em muitos disfarces. Aqui estão os mais comuns:
A Má Sorte Temporal
"Você estava à frente do seu tempo."
Isso soa como um elogio. Não é. Significa: A invenção era boa, mas o inventor é culpado por tê-la tido cedo demais. Como se o momento certo fosse algo que o inventor pudesse controlar — e não o sistema que decide quando está pronto para ouvir.
A Má Sorte Social
"Faltavam-lhe os contactos certos."
Tradução: A inovação não depende da qualidade da ideia, mas de quem você conhece. O sistema admite abertamente que se baseia em redes de contactos — e depois culpa o outsider por não ser um insider.
A Má Sorte de Carácter
"Você não soube vender-se."
Então o inventor não só deve inventar, mas também ser um talento de vendas, especialista em marketing e networker. E se ele "apenas" for um engenheiro brilhante que desenvolveu uma tecnologia revolucionária? Má sorte. Personalidade errada.
A Má Sorte de Mercado
"O mercado ainda não estava preparado."
Como se "o mercado" fosse uma força da natureza como o clima. Na realidade, o mercado é o resultado de decisões — de empresas que não quiseram investir, de bancos que não quiseram assumir riscos, de financiadores que preferiram financiar o conhecido. Mas todas essas decisões desaparecem atrás do abstrato "mercado", e o que resta é: o inventor com a sua má sorte.
A Função da Mentira
"Má sorte" não é uma análise. É uma afirmação defensiva.
Protege o sistema de perguntas incómodas:
- Por que não se financia inventores sem empresa?
- Por que não há capacidades técnicas de desenvolvimento para inventores individuais?
- Por que as empresas se apropriam de invenções sem envolver o inventor?
- Por que todos remetem uns aos outros, e ninguém é responsável?
- Por que as agências de financiamento perguntam "Você sequer tem uma empresa?" em vez de "O que você inventou?"
Todas essas perguntas desaparecem quando você diz: "Má sorte." Então o problema não é o sistema. O problema é o azarado.
A Impossibilidade Estatística
Aqui está o estranho: Se você perguntar a inventores suficientes, todos tiveram "má sorte". Pessoas diferentes, tecnologias diferentes, décadas diferentes — mas todos tiveram má sorte.
Em algum momento, a soma de casos individuais torna-se um padrão. E um padrão não é má sorte. Um padrão é sistémico.
Quando inventores independentes fracassam sistematicamente num país durante décadas — enquanto as suas invenções são apropriadas por empresas estabelecidas e comercializadas com sucesso — isso não é má sorte estatística. É uma estrutura que funciona exatamente como foi projetada.
O sistema não está avariado.
Foi construído para outros.
O Preço da Mentira
"Má sorte" tem consequências — não apenas para os inventores, mas para todo o país:
As inovações emigram. Quando os inventores não encontram apoio na Alemanha, vão para outro lugar — ou as suas ideias vão. Para a China, para os EUA, para qualquer lugar onde alguém esteja disposto a assumir o risco que as instituições alemãs evitam.
O conhecimento perde-se. Quando os inventores desistem, levam o seu conhecimento. Não é documentado, não é transmitido, não é utilizado. Simplesmente desaparece.
A próxima geração desanima. Os jovens veem o que acontece aos inventores independentes. Tiram as suas conclusões. Preferem tornar-se consultores em vez de inventores — menos risco, mais reconhecimento.
O sistema confirma-se a si mesmo. Quanto menos inventores há, menos se nota que o sistema não os apoia. A escassez torna-se prova de que não há necessidade.
A Verdade
A verdade é incómoda, mas simples:
Não foi má sorte.
Foi um sistema otimizado para evitar riscos. Um sistema que não prevê inventores sem empresa. Um sistema que valoriza mais as redes de contactos e o talento comercial do que a brilhantez técnica. Um sistema que prefere financiar o conhecido em vez de arriscar-se com o novo.
Isto não é uma acusação. É um diagnóstico. E um diagnóstico é o primeiro passo para a cura — se você estiver disposto a ouvi-lo.
A pergunta é: A Alemanha está disposta?
Ou continuará a dizer: "Má sorte"?
Conclusão
O diálogo no início deste ensaio é real. Repetiu-se durante anos, entre um inventor e o seu interlocutor no sistema. Um disse: "As vossas regras estão erradas." O outro disse: "Mas você também teve muita má sorte."
Ambos tinham razão à sua maneira.
As regras estavam erradas. E dentro dessas regras, o inventor teve má sorte — a má sorte de não se encaixar no sistema. A má sorte de ser inventor num país que já não quer inventores.
Mas fazer passar uma coisa pela outra — vender o fracasso sistémico como má sorte individual — essa é a mentira mais confortável do sistema de inovação alemão.
E enquanto acreditarmos nela, nada mudará.
"Quem tem má sorte não tem culpa.
Quem produz a má sorte tem."
Este ensaio faz parte da série "O Deserto de Inovação da Alemanha"
O material será incorporado ao livro "Mecânica Celeste na Máquina-Ferramenta."