O Vale da Morte da Inovação
A lacuna onde morrem as melhores invenções da Alemanha
A Escala da Inovação
Na pesquisa de inovação, a maturidade de uma tecnologia é medida numa escala de 1 a 9 — o chamado "Technology Readiness Level" (TRL). A escala foi originalmente desenvolvida pela NASA e agora é um padrão mundial:
Esta escala parece um caminho contínuo da ideia ao produto. Mas esconde uma lacuna — uma lacuna que se torna armadilha para inúmeros inventores.
O Vale da Morte
Entre TRL 3 e TRL 7 encontra-se uma zona que ganhou um nome revelador na pesquisa de inovação: o "Vale da Morte."
Esta é a zona onde as tecnologias são maduras demais para financiamento de pesquisa — mas ainda não maduras o suficiente para investimento industrial. Onde o sucesso acadêmico já não conta — mas o sucesso comercial ainda não começou.
Aqui é onde morrem as invenções. Não porque não funcionem. Mas porque ninguém se sente responsável por elas.
O Que É Financiado
Pesquisa básica (TRL 1-3) é bem financiada na Alemanha. Universidades, Institutos Max Planck, projetos DFG — há dinheiro, infraestrutura, carreiras. Aqui nascem as ideias e os princípios são testados.
Desenvolvimento industrial (TRL 7-9) também é bem financiado — por empresas que já têm a infraestrutura para levar uma tecnologia ao mercado. Aqui trata-se de otimização, produção em série, lançamento no mercado.
Mas no meio? Na zona de TRL 4-6? Há um vazio estrutural.
Os Atores e Seus Limites
As Universidades
Seu trabalho é a pesquisa básica. Podem provar um princípio — mas faltam-lhes os recursos para levá-lo ao mercado. Quando um projeto de pesquisa termina, o cientista segue em frente. A tecnologia fica para trás.
As Empresas
Querem soluções prontas. Tecnologia em TRL 7+ que possa ser integrada na produção existente. O risco de TRL 4-6 — anos de desenvolvimento com resultado incerto — não cabe nos relatórios trimestrais.
As Agências de Financiamento
Têm programas para pesquisa básica e programas para desenvolvimento industrial. Mas programas-ponte? Raros. E quando existem, exigem empresas como candidatos — inventores sem empresa nem precisam se candidatar.
Os Centros de Transferência Tecnológica
Consultam. Conectam. Organizam workshops. Mas não desenvolvem. Não têm capacidade de engenharia, nem oficinas de protótipos, nem instalações de teste. São intermediários sem inventário.
As Cinco Palavras
Há uma frase que resume todo o sistema de inovação alemão em cinco palavras. Um inventor a ouve mais cedo ou mais tarde de cada agência de financiamento:
"Você sequer tem uma empresa?"
Não: "O que você inventou?"
Não: "Que problema isso resolve?"
Não: "Como podemos ajudar?"
Mas sim: "Você se encaixa na nossa caixa?"
Um inventor sem empresa não está previsto. Não cabe em nenhum formulário. Perturba o processo.
O Cartel da Ignorância
O que se descreve aqui não é um fenômeno novo. O Prof. Erich Häußer, ex-presidente do Escritório Alemão de Patentes, analisou isso com precisão em meados dos anos 90:
"Os inventores, mas também os cientistas — na medida em que não pertencem ao establishment — já não são apoiados com todos os meios, promovidos e geralmente reconhecidos por suas realizações, mas negligenciados, frequentemente tratados francamente mal ou — o que é quase pior — simplesmente ignorados."
— Prof. Erich Häußer
Häußer chamou este sistema de "Cartel da Ignorância". E advertiu:
"Se não conseguirmos quebrar este cartel da ignorância, num tempo bastante previsível nos tornaremos novamente um país de baixos salários."
Isso foi há 30 anos. Ninguém ouviu. O aviso tornou-se realidade.
A Consequência
Então, quem leva uma invenção de TRL 3 a TRL 7?
O próprio inventor. Com seu próprio dinheiro. Com seu próprio tempo. Com sua própria saúde. Contra toda resistência. Durante décadas.
Esta não é uma história de heróis. É uma falha do sistema.
A Alemanha tem excelente pesquisa básica. A Alemanha tem engenheiros altamente qualificados. A Alemanha tem abundantes fundos de financiamento. E ainda assim as inovações emigram — para a China, para os EUA, para qualquer lugar onde alguém esteja disposto a assumir o risco das etapas TRL intermediárias.
O Que Seria Necessário?
O Vale da Morte não é uma lei natural. É o resultado de decisões que poderiam ser corrigidas:
- Capacidade de desenvolvimento técnico: Não apenas consultoria e networking, mas recursos reais de engenharia para inventores. Projetistas, construtores de protótipos, instalações de teste.
- Financiamento contínuo de TRL: Programas que acompanhem uma tecnologia de TRL 3 a TRL 7, sem que o inventor tenha que apresentar novas candidaturas em cada etapa.
- Modelos de parceria: Estruturas nas quais os inventores participam como parceiros iguais — não como fornecedores de propriedade intelectual.
- Mudança de mentalidade: A primeira pergunta a um inventor deveria ser: "O que você inventou?" — não: "Você sequer tem uma empresa?"
Conclusão
O Vale da Morte não é uma fase inevitável do desenvolvimento tecnológico. É uma lacuna no sistema que é deliberadamente deixada aberta — porque fechá-la exigiria coragem, recursos e vontade de mudança.
Enquanto esta lacuna existir, os inventores alemães continuarão lutando sozinhos. Alguns desistirão. Alguns emigrarão. Alguns verão suas ideias realizadas em outro lugar.
O Prof. Häußer tinha razão. O Cartel da Ignorância venceu.
"O declínio não começa com uma catástrofe. Começa quando você para de fazer as perguntas certas."
Este ensaio faz parte da série "O Deserto de Inovação da Alemanha"
O material será incorporado ao livro "Mecânica Celeste na Máquina-Ferramenta."